Atacarejo e indústria ampliam parcerias

Setores criam grupos de trabalho para melhorar processos e reduzir problemas no fornecimento de mercadorias. E os resultados já aparecem

Por Katherine Rivas

Em julho de 2018, as catorze redes de atacarejo que integram a ABAAS (Associação Brasileira de Atacadistas de Autosserviço) notaram um aumento de ocorrências no recebimento de mercadorias. Então, os membros da ABAAS fizeram uma pesquisa para dimensionar o problema. O estudo, realizado entre julho a setembro do ano passado, é o mais amplo desse tipo no Brasil.

A partir do resultado da pesquisa, a ABAAS decidiu formar uma comissão para debater os desafios levantados e convidou os fornecedores para um diálogo com as cartorze redes de atacarejo. O trabalho da comissão começou em julho de 2019 e reuniu os gerentes de prevenção do setor de atacarejo de empresas de alimentos e de bebidas.

O projeto se tornou pioneiro ao criar um modelo de trabalho sinérgico entre a indústria e os atacadistas. A Ambev foi a primeira a se reunir com o comitê, em julho passado. Segundo Renato Barros dos Santos, gerente nacional do Nível de Servicos da empresa, a iniciativa foi importante para levar a Ambev a encarar problemas que estava deixando de lado. Viviane Nascimento, diretora de Logística de Redes Nacionais da Ambev, cita uma pesquisa da consultoria Advantage sobre a relação entre a indústria e o atacarejo para lembrar que algo precisava ser feito. “Nos estávamos em último lugar na pesquisa Advantage e ficamos envergonhados com isso”, diz Viviane.

Após se reunir com a ABAAS, a Ambev criou um comitê interno para rastrear os principais problemas na entrega das mercadorias. E os encontrou. “O percurso para abastecer algumas redes é muito longo e isso pode produzir avarias nos produtos”, afirma Viviane. “No caso das nossas frotas, foi necessário identificar aquela que seria ideal para cada produto e rede.” Outra iniciativa foi o envio, a todos os integrantes da ABAAS, do “Manual de Qualidade do Produto”, com dicas de armazenamento das mercadorias. “O manual também ajuda a empresa a identificar se o produto está avariado e a orienta sobre como passar informações para os fornecedores”, diz Viviane.

ABAAS criou uma comissão para aproximar os fornecedores das 14 redes de atacarejo. Projeto é pioneiro no Brasil.

Até redes sociais foram usadas para melhorar a comunicação entre a indústria e o atacarejo, como a criação de um grupo no WhatsApp com representantes da ABAAS e da indústria. Marcelo Soares, presidente da Comissão de Prevenção de Perdas da ABAAS e diretor do Makro, afirma que o uso do WhatsApp garantiu uma comunicação mais direta entre os setores e foi um grande diferencial na redução de perdas. “Quando acontece um problema na loja, a empresa solicita informações para rastrear a mercadoria, como o número do lote e localização. Assim ela identifica a origem da carga e resolve a questão rapidamente”, diz Soares.
Além do WhatsApp, o setor nomeou gerentes, espalhados por todo o Brasil, para atender às demandas mais urgentes dos associados.

Os resultados vieram. Em setembro, representantes do atacarejo se reuniram na sede da ABAAS, em São Paulo, para debater os impactos das iniciativas propostas pela indústria. A conclusão do comitê foi unânime: as ocorrências diminuíram. Segundo Mônica Fernandes, do Giga Atacado, os registros de problemas caíram 75% nas dez lojas da rede, com apenas duas ocorrências observadas nos últimos meses. Edson da Silva, do Roldão, diz que sua empresa não registrou nenhuma ocorrência no período, mas continua atento a eventuais dificuldades.

O Assaí, segundo o executivo Ronald da Silva, também detectou uma significativa redução das ocorrências nas primeiras empresas participantes do processo. Ele afirma, porém, que ainda há problemas especialmente na região Nordeste. “Registramos falta de mercadorias na Bahia, mas em quantidades muito menores”, comenta. A situação é parecida com a rede MartMinas, que apresentou problemas em apenas
duas lojas. Sérgio Garze, do Villefort, teve surpresas quando realizou um novo mapeamento de perdas nas 21 lojas de Minas Gerais e uma em Goiás. Mas continuará com o trabalho da conferência. “Tivemos  algumas dificuldades com fornecedores regionais, mas as coisas estão melhorando”, garante.

No setor de alimentos, as conversas com a ABAAS também avançaram e vários compromissos foram assumidos entre a entidade e fornecedores. Entre eles, a criação de um grupo de WhatsApp com os gerentes de prevenção do setor, a organização de uma visita dos associados da ABAAS às sedes das empresas do segmento e a ampliação do uso de QR code nas embalagens para evitar a troca de produtos.

O presidente da Comissão de Prevenção de Perdas da ABAAS, Marcelo Soares, está otimista com as mudanças e prevê que novas parcerias sejam realizadas. “Logo será a vez de outros membros da indústria se aproximarem de nosso comitê”, afirma. Para Roberto Butragueño, diretor de atendimento ao varejo e e-commerce da consultoria Nielsen, a ampliação das parceiras beneficia todos os protagonistas do setor. “Se isso acontecer, teremos uma relação ‘ganha-ganha.’ Ou seja, ganha o atacarejo, a indústria e o consumidor.

Boas práticas
O que as empresas e o atacarejo fizeram para reduzir as ocorrências

 

As estratégias do setor de bebidas:
– Criação de um Comitê Interno para identificar ocorrências
– Estudos de percurso e compra de frotas específicas para o atacarejo
– Reestruturação do “Manual de Qualidade do Produto”
– Mudanças internas na logística da empresa e desenvolvimento de áreas especializadas
– Criação de um grupo no WhatsApp com os membros da ABAAS
– Indicação de sete gerentes regionais para atender demandas urgentes da ABAAS

As estratégias do setor de alimentos:
– Estudo da pesquisa feita pela ABAAS para identificar a origem das ocorrências
– Criação de um grupo no WhatsAPP com os membros da ABAAS
– Visita de representantes da ABAAS às empresas para conhecer processos de produção e transporte
– Melhorias no uso de QR code nas embalagens

As estratégias do atacarejo:
– Comunicar com agilidade as ocorrências
– Melhorar os processos de inventário e conferência de produtos
– Realizar reuniões periódicas para avaliar resultados
– Dar prioridade de descarga aos produtos das empresas parceiras

Fonte: Revista ABAAS nº 9 | Outubro de 2019
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